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Tio Pepe é cinquentão


Tão instável como água na chaleira, a longevidade de um restaurante depende de tantos fatores que poderíamos começar um livro aqui. Mas dois deles podem resumir a ópera: constância na qualidade e capacidade de acumular capital afetivo com a clientela. Isso, o Tio Pepe tem de sobra: a casa acaba de completar 50 anos desde que o espanhol José Garrido Cid, "Pepe", inaugurou naquele turbulento ano de 1964 uma casa na beira-mar de uma pouco densa Boa Viagem especializada em frutos do mar. Ali, os clientes podiam escolher lagostins e camarões para serem grelhados na hora.

Alguns anos e alguma pressão imobiliária depois, o restaurante se mudou para um simpático casarão de Setúbal, um dos últimos do bairro. Nem todos do batalhão de garçons são exatamente receptivos e comunicativos como a decoração bem humorada sugere, mas o Tio Pepe segue como um daqueles lugares que entram logo na cartografia do nosso afeto. É o tipo de casa onde famílias inteiras almoçam, religiosa e festivamente, toda semana. Lembrança dos primeiros tempos, a grelha ainda é marca da cozinha. E que grelha: dedicado à culinária "regional", o que, de forma alguma, significa se limitar às receitas interioranas, mas também e com louvor ao rosário de preparos do litoral, a chapa é passaporte para a cocção de peixes com resultado monumental. Se não, observem a pescada grelhada. Dificilmente fora de um restaurante de "alta gastronomia", encontramos um filé de pescada tão alto e tenramente grelhado, úmido e suculento por dentro. O prato é bem humoradamente batizado de Dona Pepa, uma boneca de pano criada por Mirtes Garrido, filha e herdeira gastronômica de Pepe, que fica no terraço da casa como uma espécie de anfitriã fictícia. É de Mirtes, aliás, o bom humor palpável da decoração, com quadros pendurados pelo teto e objetos como uma antiga cama convertida em mesa. Da grelha também sai a carne de sol, macia, servida com queijo de coalho.

Os acompanhamentos podem ser escolhidos – as farofas da casa são um caso à parte. Outro sucesso é um filé "trifásico": recheado com bacon sem gordura e cream cheese, servido com risoto de cogumelo e cenouras, mais macaxeira palha. Há outros pratos "criativos", como a Porca vulcânica, um filé de porco na brasa, com feijão frito, creme de leite e pimentão assado sem pele, acompanhado de "bolachões" de macaxeira crocante, na verdade discos de macaxeira rösti. Os pratos são verdadeiramente generosos, fartos para até três pessoas, e com preços que vão de cerca de R$ 40 a cerca de R$ 60.

Entre as entradas, as linguiças artesanais alemãs e as coxinhas com carne de caranguejo (a massa não é grande coisa, mas o recheio, molhadinho como um ensopado de beira de praia) são bem procurados. E as sobremesas, para não fugir da regra, orbitam em torno da doçaria tradicional pernambucana.

Fonte: JC Online